O serviço de travessia de balsa - 1954
O serviço de travessia de balsa, ligando o Guarujá até Bertioga, foi implantado e inaugurado pelo Governo do Estado de São Paulo em 10 de dezembro de 1954, mas o serviço de lanchas para travessia de passageiros entre Bertioga e Santos ainda permaneceu ativo por muitos anos.
Em 1948, o engenheiro Francisco Prestes Maia, no âmbito de seus estudos para o Plano Regional de Santos, já previa a utilização de uma balsa em Bertioga como parte do sistema de ligação terrestre do litoral. Posteriormente, em 1952, o Prefeito de Santos, Joaquim Alcaide Valls, solicitou ao Governo do Estado, então chefiado por Lucas Nogueira Garcez, as providências necessárias para estabelecer a ligação por ferry-boat entre Guarujá e Bertioga.
A implantação do serviço exigiu não apenas a disponibilização das embarcações, mas também a construção e adequação das estruturas necessárias à atracação e ao embarque dos veículos em Bertioga, além de melhorias na estrada que fazia a ligação com o Guarujá.
Compareceu à cerimônia de inauguração o próprio Governador do Estado, Lucas Nogueira Garcez. Ele estava acompanhado da seguinte comitiva: Nilo de Andrade Amaral (Secretário da Viação e Obras Públicas), Plínio Cavalcanti (Secretário de Segurança Pública), Antônio Ponzio Hipólito (Diretor de Obras Sanitárias), Joaquim Alcaide Valls (ex-Prefeito de Santos e Diretor da Divisão de Saneamento Urbano) e Oswaldo Feliciano (ajudante de ordens do Governador).
O Governador foi recebido pelo Prefeito de Santos, Antônio Ezequiel Feliciano da Silva, pelo Prefeito do Guarujá, João Torres Leite Soares, e por Gustavo Martini (Presidente da Câmara Municipal de Santos), Adhemar de Figueiredo Lira (Diretor do Fórum de Santos), Dom Idílio José Soares (Bispo de Santos), dentre outras autoridades.
Primeiro houve a inauguração de novas embarcações para o sistema Santos–Guarujá e, posteriormente, a comitiva seguiu em diversos automóveis pela estrada Guarujá–Bertioga até chegar à ponte de atracação da balsa. Ali, o Governador e sua comitiva foram recebidos por Sylvio Rodrigues, Subprefeito de Bertioga. A travessia inaugural foi realizada por uma das barcaças do novo sistema, conduzindo autoridades até o lado de Bertioga.
No cais de Bertioga realizou-se o ato oficial de inauguração. A documentação fotográfica da época registra o corte da fita inaugural e a presença das autoridades que participaram da primeira travessia. Uma legenda publicada pelo jornal A Tribuna registra, inclusive, Antônio Feliciano e o engenheiro Nilo Amaral no momento do corte da fita inaugural do cais do ferry-boat de Bertioga, enquanto outra fotografia mostra, em uma das barcaças da travessia inaugural, Artur Rivau, major Luiz De Cicco, deputado Luiz Roberto Vidigal, Nilo Amaral, Joaquim Alcaide Valls, Antônio Feliciano e Sylvio Rodrigues.
No terreno junto ao cais, onde posteriormente seriam implantados os jardins, foi erguido um marco inaugural de concreto contendo uma placa de bronze, destinado a perpetuar a realização. A placa registrava o nome do Governador Lucas Nogueira Garcez e de autoridades relacionadas à implantação do empreendimento, além de uma mensagem alusiva ao significado histórico da nova ligação de Bertioga com o restante do litoral.
A existência desse marco e de sua inscrição encontra confirmação particularmente importante na própria cobertura jornalística das solenidades. Durante o almoço realizado na Colônia de Férias do SESC, o deputado estadual Luiz Roberto Vidigal, então presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, fez referência expressa às palavras gravadas no “marco inaugural erguido nos cais”. Ao destacar a importância do novo ferry-boat para Bertioga e para o desenvolvimento daquele trecho do litoral paulista, o deputado reproduziu os seguintes dizeres:
“Há quatrocentos anos esta canoa separava Bertioga no Brasil. Agora, no governo do sr. Lucas Nogueira Garcez, esse ‘ferry boat’ que abriu esse belíssimo canto da natureza a todos os brasileiros, vem ligar, não apenas Bertioga ao Brasil, mas duas épocas da nossa história litorânea.”
A inscrição conferia ao monumento um significado que ultrapassava a simples comemoração da implantação de um serviço de transporte. O marco procurava simbolizar a passagem entre duas épocas da história de Bertioga: de um lado, a antiga travessia do Canal, durante séculos dependente de pequenas embarcações; de outro, a implantação de uma ligação capaz de transportar veículos e estabelecer continuidade ao sistema rodoviário que chegava até as margens do Canal de Bertioga.
A placa de bronze constituía, portanto, o registro material da inauguração, enquanto seus dizeres procuravam conferir à obra um sentido histórico de integração territorial. A referência feita por Luiz Roberto Vidigal no próprio dia da solenidade é especialmente relevante porque documenta contemporaneamente a existência do marco e preserva parte de sua inscrição, mesmo que as fotografias atualmente disponíveis da placa não permitam a leitura integral e segura de todos os nomes e dizeres nela gravados.
O Governador regressou à Capital, mas algumas autoridades do Estado permaneceram para as demais cerimônias. O mau tempo havia levado Lucas Nogueira Garcez a antecipar as travessias inaugurais originalmente programadas para as 10 horas. Em razão de compromissos em São Paulo, o Governador deixou Bertioga e passou a ser representado nas demais solenidades pelo Secretário da Viação e Obras Públicas, Nilo de Andrade Amaral.
Foi servido no Hotel Umuarama um coquetel de boas-vindas. Na sequência, houve um grande almoço na Colônia de Férias do SESC, onde foram realizados vários discursos de agradecimento ao Governo do Estado. A recepção foi promovida pela Subprefeitura de Bertioga e pela Colônia de Férias do SESC.
Durante o almoço, Luiz Roberto Vidigal destacou a importância do novo sistema de travessia para o desenvolvimento daquele trecho do litoral paulista. A inauguração era compreendida, naquele momento, não apenas como a implantação de um novo serviço de transporte, mas como um acontecimento capaz de integrar Bertioga às demais localidades e ampliar significativamente suas possibilidades de desenvolvimento e de exploração turística. O Prefeito Antônio Feliciano também manifestou publicamente o agradecimento da população santista ao Governo do Estado pela realização da obra.
Grandes mudanças estavam por vir. Em mais de quatrocentos anos de história, pela primeira vez a Vila estava se conectando com as cidades vizinhas por meio de uma ligação rodoviária que permitia a continuidade da viagem de automóvel através do Canal de Bertioga. Até então, o Canal representava uma barreira física à continuidade da ligação terrestre. Com a implantação do ferry-boat, os veículos que percorriam a estrada Guarujá–Bertioga passaram a contar com um sistema regular de transposição do canal, estabelecendo uma nova forma de acesso à Vila.
A imprensa da época atribuiu significado histórico à inauguração. O ferry-boat era apresentado como uma obra destinada a abrir Bertioga para uma nova etapa de sua história, aproximando-a de Santos, São Paulo e das demais localidades do litoral. Havia, inclusive, a expectativa de que o avanço das ligações rodoviárias possibilitasse futuramente a comunicação terrestre com São Sebastião.
A balsa foi instalada a poucos metros da “venda” de João Sabino Abdalla, o que também contribuiu para os negócios dele e dos demais comerciantes, diante do grande número de veículos e pessoas circulando pelo centro da Vila. A implantação do serviço modificou, assim, não apenas as condições de transporte e acesso a Bertioga, mas também sua dinâmica cotidiana, aumentando a circulação de automóveis, visitantes e mercadorias em uma localidade que, até então, permanecia geograficamente mais isolada.
Do lado do Guarujá, é neste local primitivo que foi implantado em 1954 o atracadouro de acesso ao serviço de balsa entre Guarujá e Bertioga. Do outro lado do Canal, está a Vila de Bertioga na década de 1950.
Obras de terraplenagem do atracadouro da balsa. Caminhão da Subprefeitura de Bertioga. Nessa época, o Mestre de Obras da Prefeitura de Santos lotado em Bertioga era Deolindo Fernandes Lisboa.
Obras de implantação do sistema de travessia de balsa entre Guarujá e Bertioga. Foto cedida por Sandra Lia, filha de Sylvio Rodrigues (1954).
Obras de implantação do sistema de travessia de balsa entre Guarujá e Bertioga. Foto cedida por Sandra Lia, filha de Sylvio Rodrigues (1954).
Governador do Estado de São Paulo: Lucas Nogueira Garcez
Engenheiro Francisco Prestes Maia, que propôs a instalação do serviço de travessia de balsa no seu Projeto de Desenvolvimento Regional de Santos.
Joaquim Alcaide Valls, Prefeito de Guarujá entre 1951 e 1952, foi quem requereu ao Governador do Estado a instalação do serviço de balsa.
Antônio Ezequiel Feliciano da Silva, Prefeito de Santos entre 1953 e 1957, acompanhou as obras em Bertioga realizadas pela administração do distrito que urbanizaram o sistema de acesso e embarque às balsa.
Sylvio Rodrigues, Subprefeito de Bertioga na época da instalação do serviço de balsa, quando foram executadas obras de terraplenagem e a instalação do sistema de acesso ao atracadouro da balsa.
Do lado do Guarujá, a inauguração do sistema de travessia de balsa. O Secretário de Estado da Viação e Obras Públicas de São Paulo Engenheiro Nilo Amaral e o Prefeito de Santos desfazem o laço enquanto são observados no centro pelo Prefeito do Guarujá.
Jornal “O Estado de S. Paulo” – Foto do dia da inauguração do sistema de travessia entre Guarujá e Bertioga, registrando o momento em que a balsa chegava a Bertioga transportando a comitiva de autoridades. A estrutura de atracação aparenta estar desalinhada ou inclinada; contudo, não foi possível identificar com precisão nem estudar as características da estrutura específica utilizada naquele período.
Inauguração do sistema de travessia de balsa entre Guarujá e Bertioga. Foto cedida por Sandra Lia, filha de Sylvio Rodrigues. A comitiva quando chegava de balsa do lado de Bertioga. Detalhe para a fita de inauguração.
Do lado de Bertioga, inauguração do sistema de travessia de balsa. Dia 10 de dezembro de 1954. O Governador do Estado de São Paulo (Lucas Nogueira Garcez) cortando o laço, observado pelo Prefeito de Santos (Antônio Ezequiel Feliciano da Silva) e pelo Subprefeito de Bertioga, Sylvio Rodrigues. Foto cedida por sua filha Sandra Lia.
Inauguração do sistema de travessia de balsa entre Guarujá e Bertioga. Foto cedida por Sandra Lia, filha de Sylvio Rodrigues, quando seu pai discursava em cima da plataforma de acesso à balsa. Do lado esquerdo da foto está o Governador do Estado, mas o fotógrafo cortou parcialmente a imagem, seguido pelo Prefeito de Santos e pelo Prefeito do Guarujá.
Inauguração do sistema de travessia de balsa entre Guarujá e Bertioga. A fita de inauguração já estava cortada. Esta foto foi cedida por Sandra Lia, filha de Sylvio Rodrigues, quando seu pai discursava em cima da plataforma de acesso à balsa, ouvido com atenção e empatia pelo Governador do Estado de São Paulo, que está com as “mãos cruzadas” do lado esquerdo do Prefeito de Santos (o de menor estatura, no centro da imagem); do lado direito do Prefeito de Santos, de terno branco, com os “braços cruzados”, está o Prefeito do Guarujá.
Almoço da comitiva no SESC Bertioga. Discursaram: Luís Roberto Vidigal (Deputado Estadual), Antônio Feliciano (Prefeito de Santos) e o Engenheiro Nilo Amaral (Secretário de Estado da Viação e Obras Públicas de São Paulo).
No dia 10 de dezembro de 1954 também foi inaugurado o marco comemorativo da instalação do serviço de balsa. Era uma placa de bronze que aparece nas imagens em dois momentos, em 1954 (imagem em preto e branco recriada por IA) e em 2015 (foto original colorida do Jornal Costa Norte). Não existem fotos das autoridades descerrando a placa, mas a existência do monumento foi relatada no Jornal A Tribuna de Santos de 11 de dezembro de 1954. Constava da placa a data e o nome das autoridades, além dos seguintes dizeres: “Há quatrocentos anos esta canoa separava Bertioga no Brasil. Agora, no governo do sr. Lucas Nogueira Garcez, esse ‘ferry boat’ que abriu esse belíssimo canto da natureza a todos os brasileiros, vem ligar, não apenas Bertioga ao Brasil, mas duas épocas da nossa história litorânea.” A placa era um testemunho da história de Bertioga. Porém, atualmente, o monumento está sem a placa, pois foi furtada, abandonada ou a história foi esquecida.
Transcrição literal da nota do jornal A Tribuna de Santos sobre as duas imagens acima: “No clichê, ao alto, e à esquerda, o momento em que o dr. Antônio Feliciano e o engenheiro Nilo Amaral, cortavam a fita inaugural do cais do “Ferry-boat” da Bertioga, já do lado daquele sub-distrito de Santos. À direita, flagrante batido em uma das barcaças que fizeram a travessia inaugural, vendo-se, da esquerda para a direita, os srs. Artur Rivau, major Luiz De Cicco, deputado Luiz Roberto Vidigal, Nilo Amaral, Alcaide Vals, Antônio Feliciano e Silvio Rodrigues.”