A destruição da fortaleza - 1551
A vegetação ao redor da fortificação foi parcialmente cortada e queimada, para posterior cultivo da terra. Os Tupinambás quando viram a fumaça, o fogo e a construção dos portugueses, teriam gritado “caiçara”, como uma forma de designar a estrutura de madeira e a intervenção agressiva do homem branco na natureza, local de onde os indígenas retiravam tudo o que precisavam para viver, a comida, a água, as folhas, a madeira, a caça, não sendo para eles compreensível tamanha violência com o meio ambiente do qual eles vivem e estão conectados espiritualmente. Era o lugar onde eles vinham anualmente pescar a tainha. O cheiro da fumaça, os pássaros e animais fugindo assustados, era um cenário que atormentou os nativos.lvinar dapibus leo.
Os Tupinambás planejaram um ataque à noite, com mais de setenta canoas e centenas de homens. Os moradores do sítio de Bertioga, concentrados dentro da fortificação de madeira, foram surpreendidos e pouco puderam fazer. Houve uma resistência, mas eram muitos no ataque. Os moradores foram mortos. Somente conseguiram sobreviver a família de Diogo de Braga e alguns agregados, por terem se refugiado na casa forte no centro da “paliçada”, de onde assistiram a carnificina. Todo o resto foi incendiado. Como as vítimas eram em número inferior aos indígenas, repartiam os mortos entre si, disputando quem ficaria com as melhores partes, levando tudo para a aldeia.
Os Tupinambás praticavam a antropofagia, que consistia em uma espécie de ritual espiritual de comer a carne do inimigo, com uma bebida fermentada de milho e frutas, o “cauim”, preparado apenas pelas mulheres. Há divergência entre os autores sobre a data da destruição da fortaleza de paliçada, com a casa forte ao centro, feita pela família de Diogo de Braga. Para Francisco Martins dos Santos e Fernando Martins Lichti o ataque indígena teria ocorrido no mesmo ano de sua construção, em 1547. Já no livro “Arquitetura Militar, um panorama histórico a partir do Porto de Santos”, os autores Victor Hugo Mori, Carlos A. Cerqueira Lemos e Adler H. Fonseca de Castro, consideram que a paliçada foi destruída em 1551, partindo da interpretação do livro de Hans Staden, Duas Viagens ao Brasil, no qual o autor menciona que a destruição da fortificação teria ocorrido “dois anos antes de sua chegada”, não a São Vicente, mas a Bertioga, que ocorreu em dezembro de 1552, começo de 1553. A versão de que a fortaleza foi destruída em 1551 é coerente com a Carta do Irmão Diogo Jácome de São Vicente, escrita aos padres e irmãos de Coimbra, em 1551, no qual descreve o ataque e a destruição da fortaleza localizada em Bertioga, ocorridos “agora há poucos dias”.
Hans Staden ao fundo, de barba ruiva, assistindo o ritual antropofágico dos Tupinambás, durante seu período no cativeiro – Pintura de Theodor de Bry baseada no relato de Hans Staden. 1593.