MANOEL JOSÉ PINTO
Manoel José Pinto nasceu em 1857 e faleceu em 1934, na cidade de Santos, aos 77 anos. Foi pai de oito filhos: Pedro, João, Nicolau, Macario, Noemia, Capitulina, Edwiges e Iria.
Era neto do patriarca da família Campos, José Pinto Florêncio de Campos (Pai) e sua esposa Theresa de Jesus, casal que consolidou uma das famílias mais antigas e tradicionais de Bertioga. O casal teve um único filho, que deram o mesmo nome do pai: José Pinto Florêncio de Campos (Filho).
Manoel José Pinto era filho de uma relação extraconjugal de José Pinto Florêncio de Campos (Filho), com Benedicta Pinto (mulher negra escravizada). A esposa de José Pinto Florêncio de Campos (Filho) e madrasta de Manoel José Pinto era Margarida Theodora de Campos.
Segundo Vítor Pinto, neto de Manoel José Pinto e filho de Nicolau Antunes Pinto, em entrevista concedida ao jornal Costa Norte quando já tinha 80 anos, ele era “bisneto de escravo com português”. Vitor Pinto se referia a relação extraconjugal do seu bisavô José Pinto Florêncio de Campos (Filho), possível descendente de portugueses, grande proprietário de terras em Bertioga, com Benedicta que viveu numa época em que as mulheres negras eram usadas para o serviço doméstico e nos cuidados das crianças dos senhores brancos.
Segundo Vítor Pinto, o bairro de São Lourenço se formou a partir de uma grande gleba de terras em que seu avô Manoel José Pinto trabalhou junto com o pai. Essa área era uma grande plantação de cana-de-açúcar. Vítor contou que o avô, Manoel, não chegou a receber uma herança formal:
“meu avô era rejeitado, porque a família era de brancos e ele era preto (Manoel José Pinto); meu bisavô (José Pinto Florêncio de Campos) iria fazer um testamento para deixar parte das terras para meu avô, mas morreu antes de assinar o documento”.
A madrasta de Manoel José Pinto era quem administrava as terras e a produção (Margarida Theodora de Campos).
Manoel José Pinto queria o pagamento pelo tempo trabalhado, mas a madrasta disse que não tinha dinheiro para pagar. Em vez de pagamento em dinheiro, ela propôs um acordo em que Manoel recebeu como doação uma faixa de terreno de 1.100 metros de frente, indo do limite da atual Riviera de São Lourenço até o rio Itaguaré, prolongando-se até a Serra do Mar. Essa faixa de terra constituiu a base para a formação do bairro São Lourenço.
Manoel José Pinto era agricultor. Um registro oficial atesta sua condição de proprietário e contribuinte. Em 1917, um edital da Recebedoria de Rendas da Prefeitura de Santos indicava Manoel José Pinto como responsável pelo pagamento de imposto territorial em São Lourenço, evidenciando sua atuação como proprietário de terras na região.
Além do cultivo da cana-de-açúcar, Manoel José Pinto também plantava mandioca e se dedicava à pesca, garantindo o sustento da família e das cerca de dez famílias que viviam naquela região no início de 1900, todas dividindo a produção. Quando Manoel faleceu em 1934, coube ao seu filho Nicolau Antunes Pinto, pai de Vítor, continuar os trabalhos, como recordava sua esposa, Francelina Antunes, em histórias transmitidas dentro da família.
Com o tempo, as terras herdadas foram adaptadas a novas formas de cultivo. Vítor lembrou que chegou a plantar 12 mil pés de banana, exportando parte da produção para a Argentina. Junto com o tio, abriu uma estrada no meio do terreno para facilitar a circulação. Contudo, parte da área, localizada entre a rodovia Rio-Santos e a Serra do Mar, foi embargada pela Justiça, impedindo o loteamento.
O progresso logo chegou à região. A gleba de terras foi loteada, e novas famílias se fixaram em São Lourenço. A vida, porém, não era fácil. Como descreveu Vítor, “era tudo muito difícil; tudo era em Santos; se uma pessoa ficasse doente, tinha que ir de carroça, puxada por burro, pela praia até o canal de Bertioga, para ir para Santos com a barca da Companhia Santense”.
O bairro, apesar das dificuldades, mantinha forte espírito de comunidade. Os moradores se viam como parte de uma grande família, comprometidos com o progresso e o bem-estar coletivo. Vítor contou que seu padrinho Luiz Pereira de Campos foi responsável pela criação da primeira escola local, que funcionava na casa do tio João Antunes Pinto. Foi ali que ele, seus irmãos e primos tiveram acesso aos primeiros estudos. Todas as professoras que vinham dar aula moravam na mesma casa onde funcionava a escola.
Em 1947, foi construída a primeira escola em prédio próprio, novamente por iniciativa de Luiz Pereira de Campos. Vítor lembrava que, mesmo diante de críticas de alguns moradores que consideravam desnecessária a construção de mais uma escola, seu padrinho insistiu na importância da educação: “O povo precisa aprender, sem ter que sair daqui e andar a pé. Ele era um homem de visão. Ele tinha a mente aberta”, dizia Vítor, com orgulho.
A religiosidade também foi uma marca forte da comunidade. Ainda menino, aos 12 anos, Vítor ajudou na construção da primeira igreja do bairro, erguida na praia com paredes de barro. “Tinha que ter uma igreja. A gente rezava na casa da minha tia, todo mundo da comunidade”, relatou. Anos mais tarde, já na década de 1980, Vítor também colaborou na construção da atual igreja de São Lourenço, padroeiro do bairro, localizada na avenida que leva o mesmo nome.
Outro elemento marcante do legado da família Pinto é a festa em homenagem a São Lourenço, realizada anualmente entre julho e agosto, e que já ultrapassa 128 anos de tradição. O evento inclui novena, procissão e quermesse, sempre organizado pela família Pinto com apoio da comunidade. Vítor ressaltava: “Enquanto comandarmos a festa, ela vai existir e vamos sempre agregando mais pessoas. É o nosso orgulho”.
O bairro de São Lourenço, em Bertioga, distingue-se pela tradição histórica e pelas riquezas naturais que preserva. Diferente da Riviera, sua formação remonta às antigas famílias pioneiras, responsáveis pela ocupação inicial da região e pela construção de uma identidade comunitária enraizada. Sua importância está ligada tanto à memória fundiária quanto ao valor ambiental, pois abriga ecossistemas como restingas, manguezais, trechos de mata atlântica e o Rio Itaguaré. Além disso, a praia de São Lourenço, com sua extensa faixa de areia clara e o mar aberto, compõe um dos cenários mais belos do litoral de Bertioga.
A vida de Manoel José Pinto, portanto, não se resume às datas de nascimento e falecimento. Sua trajetória está diretamente ligada à formação do bairro São Lourenço, ao trabalho na terra, ao fortalecimento da comunidade e às tradições religiosas e culturais que permanecem vivas até hoje. Como filho de José Pinto Florêncio de Campos (Filho) e Benedicta Pinto, neto do patriarca José Pinto Florêncio de Campos e Theresa de Jesus, e pai de oito filhos, Manoel consolidou uma herança que ultrapassa gerações e continua presente na memória de Bertioga.